(De)Formação Cultural

Certo dia, encontrei um amigo... E, conversa vem, conversa vai, ele me disse que havia tirado umas férias e viajado a Europa. Perguntei-lhe quais os países ele visitou e o que mais o encantou. Ele me respondeu que havia feito um “tour” por Roma, Paris, Londres, Madri e Lisboa e o que mais lhe encantou foi à arquitetura dessas cidades. Em Roma ele ficou impressionado com o Coliseu. Paris com o Museu do Louvre, Londres com o Palácio de Buckingham, Madri com a Plaza Mayor e em Lisboa com a Torre de Belém.

A primeira impressão, me pareceu que esse meu amigo tinha um enorme interesse por Patrimônio Cultural ou estava querendo fazer uma média comigo por eu ser arquiteto tendo em vista que seu “tour” foi para conhecer as grandes obras que marcaram importantes períodos da história de cada um desses países e que se perpetuam no tempo como grandes marcos da cultura destes povos.

Continuando nossa “prosa” o indaguei sobre o porquê dele ter escolhido essas cidades e esses monumentos para o seu “tour”, quando fiquei perplexo da resposta que me deu. Sem rodeios ele me disse que fez o “tour” para “adquirir cultura” e que muitos dos seus amigos fazem essa viagem porque é chique.

Pela correria do dia-a-dia, tivemos que encurtar nossa “prosa”. Dispedimo-nos e seguimos nosso caminho.

Outro dia, volto a encontrar esse meu amigo em frente ao Palácio dos Ferroviários. Conversa vai, conversa vem... ele me disse que estava chegando de Ouro Preto e queria comprar um imóvel de estilo colonial em um ponto valorizado de nossa cidade para montar um restaurante e me perguntou o que eu pensava sobre isso. Dei a ele minha resposta, imaginando que o interesse dele seria utilizar esse imóvel de forma sustentável, ou seja, instalaria no imóvel seu restaurante, preservando e valorizando as características culturais dele e usaria isso como marketing para seu empreendimento. Quando de repente ele me interrompeu dizendo-me que não. Que a intenção dele é demolir aquela “casa velha” e construir um quiosque para servir lanches, mas por ser chique ele o chamaria de restaurante.

Na verdade fui surpreendido mais uma vez por esse meu amigo. Ele que vai a Europa e a Ouro Preto “adquirir cultura” visitando prédios de excepcional valor cultural para a sociedade daquelas cidades e, também, para a humanidade, quer destruir um prédio de excepcional valor cultural para a nossa sociedade em nome daquilo que é chique.

Perplexidade a parte, pode-se observar que o conceito de cultura das pessoas está totalmente deturpado. Na cidade dos outros ou nos países dos outros o Patrimônio é importante para “adquirir cultura” ou para o desenvolvimento econômico por meio do turismo cultural. Como uma propriedade privada, o imóvel de valor cultural não passa de uma “casa velha” e tem que ser demolido. Mas que cultura esse meu amigo foi adquirir na Europa ou em Ouro Preto se ele não conhece e muito menos reconhece a sua própria cultura?

Coliseu de Paris, Museu do Louvre, Palácio de Buckingham, Plaza Mayor e Torre de Belém estão para suas comunidades assim como está o Palácio dos Ferroviários para os araguarinos, Ouro Preto para os mineiros e Brasilia para os brasileiros, em termos de Patrimônio Cultural, sendo cada um destes exemplares, o marco de um tempo e a identidade viva da cultura desses povos.

O que diferencia sociedades desenvolvidas de sociedades subdesenvolvidas é a maneira com que as pessoas produzem, respeitam, preservam e utilizam sua cultura.

Respeitar, reconhecer, valorizar e preservar o nosso Patrimônio Cultural Material e Imaterial não é só chique como, também, é necessário para que as futuras gerações possam identificar no passado, a sua origem, seu modo de vida, suas tradições, seu comportamento, sua forma de agir e pensar para se projetar um futuro cada vez melhor e com qualidade de vida.

Como já disse Fernanda Montenegro um dia: "Nossa deformação cultural nos faz pensar que cabe a um segmento da sociedade levar cultura a outro. Nós temos é que buscar a cultura no povo, dando condições para que ela brote”.

Artigo publicado em 25/11/2008 na edição do Jornal Gazeta do Triângulo - Ano 72 - n° 7665 - p.02. Opinião.

Comentários

  1. Obrigado, Alessandre.

    Você também, assim como o Aloisio e o Peron, está prestando um ótimo trabalho para a cidade. Não tenho dúvida que é um trabalho prazeiroso para quem ama onde nasce ou mora.
    Eu já havia lido seus comentários sobre "(De)Formação Cultural" e já ia comentar mas percebi que o assunto é bem profundo e me afastaria por muito tempo do meu trabalho para escrever. Contudo aproveitando a gentileza do seu email, resumidamente, queria dizer que entendi seu amigo quando disse do passeio à Europa. Esse passeio é cultural na medida que os guias turísticos para falarem dos prédios e seus aspectos arquitetônicos fazem longas dissertações sobre os acontecimentos que permearam as obras históricas ao longo de suas existências, móveis, pinturas, objetos, etc. É pura aula de história ao vivo. Assim, por intermédio do turismo a manutenção dos prédios é auto-sustentável pela elevada soma que amealham com os visitantes. Inclusive essa atividade é explorada pelas igrejas em Roma (Capela Sistina) que cobram o acesso e bastaria isso para pagar as despesas de todo o Vaticano. E são lugares sagrados. Assim é quase toda a Europa e a quantidade de turistas é indescritível e inimaginável para nossos cidadãos que mal conhecem seus estados ou o turismo local.São tantos os turistas que estes chegam a incomodar os nativos às vezes com a perda da própria liberdade ou privacidade em suas próprias cidades.Mas seu amigo, pode ter razão ao querer transformar prédios antigos em restaurantes. Essa é uma tendência no Brasil, como São Luiz,
    Fortaleza, Salvador, etc. Acho que a própria casa da Ivete Sangalo fica próximo ao pelourinho em prédio antigo, além de outros hotéis famosos e caros que transformaram seus interiores em suntuosos lugares de descanso e atividade econômica. Estão usando prédios conservado-os sem perder os traços deixados pela história.Nos arredores de Londres, vários castelos estão abertos para hospedagem para pagar o custo elevadíssimo da manutenção, dos prédios, dos jardins, dos impostos, etc. O setor de hotelaria hoje busca prédios velhos, para, conservando, ainda serem úteis. É perda de cultura? (definição antropológica: conjunto de padrões de comportamento, crenças, conhecimentos, costumes etc. que distinguem um grupo social). Eu diria que a manutenção dos prédios que registraram a história dos povos é cara, então cultura é cara e por isso sabemos do elevado preço desse investimento.Podem eu e todos estarem equivocados com as definições de cultura e patrimônio histórico, mas sabemos que no nosso país os prédios tombados não recebem dinheiros suficientes para a sua manutenção e o encargo da intervenção do estado na propriedade privada passa a ser ao em vez de uma solução contra a destruição pelo tempo um entrave para a própria conservação das obras de arte, dos objetos, dos lugares, dos prédios, etc. Assim pensando, fiquei em dúvida se seu amigo é um vândalo, mas a sua dor da decepção pelas idéias dele mostra a sua grandeza...

    Abraço. Natal Fernando da Silva

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