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terça-feira, 31 de julho de 2012

DISCURSO VITORIOSO DE POLÍTICO


publicado originalmente no dia 20/06/09, neste blog e reproduzido na internet.


Vou divagar sobre um tema, criando um imaginário sobre uma situação vivenciada por um cidadão do interior do Brasil. Qualquer semelhança com a realidade, terá sido mera coincidência.


Um cidadão, o Zé Mané, sem eira nem beira, vendo sua vida amargar no fogo da miséria, entra em desespero por não encontrar perspectiva de melhora. O cidadão, na verdade é muito carismático, de fala fácil e muito simpático com todos a sua volta. Está nesta situação, pois nunca gostou muito de labutar. Sempre preferiu o ganho fácil, nas rodas de carteado, nos bingos, nos jogos de palito, que para ele sempre foi uma forma “mais digna” de ganhar a vida. Trabalhando para um patrão ele acreditava que nunca iria ser recompensado.



Como ele era muito carismático, contador de piada e recitador de versos de duplo sentido, as pessoas vibravam com sua alegria e extroversão. Numa dessas “baladas” alguém o elogiando pela sua espontaneidade o convidou para se filiar a um partido político. Ele sem entender muito que significava aquilo, pela sua simplicidade intelectual, achou interessante o convite. Conversa vai, conversa vem, a pessoa que o convidou, que pode ser considerada uma raposa na política, fez-lhe muitas promessas. E, como ele sempre gostou do ganho fácil, embarcou naquela canoa furada.


Passado algum tempo, já filiado em um partido, se candidata ao cargo de Prefeito da sua cidade. Ele pensava alto e como o partido lhe prometeu mundos e fundos ele subiu as tamancas e engoliu o rei.


Quando a população soube de sua candidatura, ninguém deu crédito. Todos passavam por ele e tiravam um sarro com sua cara. Ele via aquilo como um elogio e acreditava que sua popularidade estava alta, devido a sua inocência.


Enquanto isso, nos bastidores da campanha o circo estava armado. O partido recrutava as “formiguinhas” recolhendo seus títulos de eleitores, os quais seriam devolvidos no dia da eleição. O pagamento combinado com as “formiguinhas” estava atrelado à vitória do candidato com expressiva votação. Cada uma das cem “formiguinhas” teriam que captar cem votos cada uma, num universo de trinta mil eleitores. A concorrência estava alta, pois cinco candidatos disputavam as eleições. Era uma missão quase impossível!


A campanha eleitoral transcorria dentro da normalidade. O palanque para o discurso estava armado e muita gente chegava para o comício do Zé Mané. O discurso final, dois dias antes das eleições, fora preparado para que ele lesse e fosse ovacionado pelo público. O discurso dizia assim:


“O nosso partido cumpre o que promete.
Só os estúpidos podem crer que
Não lutaremos contra a corrupção.
Porque, se há algo certo para nós, é que
A honestidade e a transparência são fundamentais
Para alcançarmos os nossos ideais
Mostraremos que é grande estupidez crer que
As empreiteiras continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
A justiça social será o alvo de nossas obras.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
Se possa governar com as manchas e pessoas da velha política.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
Se diminua os cargos de confiança e termine com as negociatas.
Não permitiremos de nenhum modo que
As nossas crianças fiquem fora da escola e que os velhos não tenham acesso a saúde.
Cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
Os recursos econômicos da cidade se esgotem.
Exerceremos o poder até que compreendam que
Somos a nova política.”



Mas, o Zé Mané, para não renegar sua fama de piadista, quis inovar e leu o discurso iniciando de baixo para cima.
“Somos a nova política.
Exerceremos o poder até que compreendam que
Os recursos econômicos da cidade se esgotem.
Cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
As nossas crianças fiquem fora da escola e que os velhos não tenham acesso a saúde.
Não permitiremos de nenhum modo que
Se diminua os cargos de confiança e termine com as negociatas.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
Se possa governar com as manchas e pessoas da velha política.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
A justiça social será o alvo de nossas obras.
Asseguramos sem dúvida que
As empreiteiras continuarão no governo, como sempre.
Mostraremos que é grande estupidez crer que
Para alcançarmos os nossos ideais
A honestidade e a transparência são fundamentais
Porque, se há algo certo para nós, é que
Não lutaremos contra a corrupção.
Só os estúpidos podem crer que
O nosso partido cumpre o que promete.”



Durante o discurso, as pessoas do partido não sabiam onde se escondiam. Não tinha mais jeito, o Zé Mané estava empolgado e a cada palavra o público o aplaudia incansavelmente. O Zé foi, realmente, ovacionado pelo público.


Chega o grande dia: as eleições. O partido já se recolhe dando como certa a derrota após o fiasco do discurso feito pelo Zé. Mas, por outro lado, o Zé interpreta aquilo tudo como uma grande festa. Durante todo o dia o Zé é aplaudido em todos os lugares que chega. E as horas passam e se aproxima do encerramento e fechamento das urnas.


A emissora de rádio da cidade começa a se movimentar em busca de pesquisas de boca de urna. O resultado em todas elas vai contra o Zé Mané. O infeliz aparece na última colocação. Mas, ele continua a festa, pois o partido lhe adiantou uma boa grana para poder disputar as eleições. O Zé comprou roupas novas, um carro, e junto com sua esposa desfilavam pela cidade, aguardando o resultado final das eleições.


A apuração começou por volta das 18h e já se passava das 20h quando a emissora de rádio local divulga o resultado das eleições:
- E nesse momento, caros ouvintes, já temos o resultado final das eleições de Maneirópolis.
- Tivemos 2 % de votos brancos; 1% de votos nulos; 0,5% de abstenção.
- O candidato 5° colocado teve 0,8% dos votos
- O candidato 4° colocado teve 1,2% dos votos
- O candidato 3° colocado teve 1,5% dos votos
- O candidato 2° colocado teve 3,0% dos votos
- O candidato 1° colocado teve 90% dos votos.



Nessa hora a cidade toda se calou e o suspense tomou conta até mesmo do Zé Mané. Após uma pausa, o locutor da emissora de rádio anuncia:
- O grande vencedor das eleições de Maneirópolis com 90% dos votos foi....
- Foi...
- Foi...
- Zé Mané!!!!
A cidade explodiu de alegria. Todos correram ao encontro do Zé Mané para comemorar a grande vitória. O povo invadiu a praça carregando o Zé Mané nos ombros e o foguetório iluminou o céu da pacata cidade.



Tem momentos na vida que temos que parar e refletir um pouco sobre certos acontecimentos. O tempo é tão corrido neste século XXI que o único tempo que temos para parar é na hora de dormir. Bem que muitos não conseguem, pois a consciência não os deixam dormir em paz.



O Zé Mané, agora dorme em paz, pois venceu as eleições pela sua simplicidade, honestidade e verdade do discurso. Enquanto muitos agem politicamente corretos na aparência, o Zé Mané foi autêntico em seu discurso, o que lhe conferiu o crédito da população.



Em política não adianta inventar fórmulas mirabolantes que não são exeqüíveis. A sinceridade e a criatividade fazem a diferença.



E agora, o que será de Maneirópolis? O Zé Mané não entende nada de administração pública. E agora José? E agora Mané?


Só para lembrar, esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com a realidade terá sido mera coincidência.


E viva o Zé Mané!!!




_____________________________
Autor: Alessandre Humberto de Campos. Reprodução proibida, com exceção do discurso do Zé Mané.

2 comentários:

  1. Alessandre, exatamente assim que somos governados por Zé Mané e, quando não é Zé Mané, somos governados pelas empreiteiras.

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  2. GRANDE COINCIDÊNCIA ALESSANDRE.

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